Não leva mais
que alguns minutos para que o corpo comece a se decompor depois da morte.
Primeiro vem o algor mortis, e o
corpo começa a perder mais de um grau célsius por hora até atingir a
temperatura ambiente. As células se tornam mais ácidas e se abrem liberando as
enzimas dos tecidos. A seguir vem o livor
mortis, ou seja, devido à gravidade, as células vermelhas do sangue vão
para parte do corpo mais próxima do chão, gerando assim manchas roxas, o que
permite aos legistas identificarem a posição em que o corpo morreu. Depois
disso, rigor mortis, um processo que
ocorre por culpa das bombas localizadas nas membranas das células musculares.
Quando essas bombas param de funcionar, provocam uma inundação de cálcio que
contrai e enrijece a musculatura do cadáver. Então vem a autólise. As bactérias
e enzimas gastrointestinais se liberam, e em conjunto com insetos, realizam o
estágio de putrefação do corpo, liberando gazes tóxicos e deixando, por fim,
apenas os ossos. No entanto, o que é humano, se recusa a morrer.
Quarta-feira de
cinzas chegou e Edgar se preparava para levar flores ao túmulo de sua esposa. Era
difícil aceitar como morta uma figura que ainda residia em sua mente com um
fulgor radiante de vida. – Helena... Helena... Repetia, todos os dias, o nome
da amada em seus pensamentos. Lembrava como parecia que a própria luz do sol
entrava pela porta quando ela chegava em casa. Agora era noite. Já fazia mais
de um ano que ela se foi? Edgar se sentia perdido no tempo, há muito já não se
preocupava mais com as horas. Ia sair para comprar as flores, e ficar o dia
todo aos pés do túmulo de Helena como era de costume em toda quarta-feira de
cinzas. Todavia, dessa vez, algo inesperado aconteceu. O telefone tocou.
- Alô, quem é?
Como? Pare de brincadeira, isso não se faz. Sabe que dia é hoje? Pois bem, e
ainda tem coragem de fazer um telefonema desses? O coração de Edgar duvidava de
sua dúvida. Talvez fosse vontade de que aquilo fosse real. – Helena, é mesmo
você? Ele tinha certeza que era ela, aquela voz, ele conhecia muito bem aquela
voz, e ninguém mais no mundo além de Helena a tinha. Seu corpo todo tremia,
havia misturando-se dentro de si medo e alegria. – Onde você está?
- Em Green Wood, no Green-Wood Cemetery. Era lá que ela havia sido enterrada. – Você está
bem? – Estou com saudade, meu amor, preciso muito de você comigo. – Eu preciso
desligar... – Não, por favor, Edgar, não desliga, eu preciso que você me escute...
Edgar desligou
apavorado. Não conseguia nem pensar direito, tamanha a confusão que se
instaurou em seu espírito. Sentiu-se muito mal por ter desligado o telefone
daquele jeito, afinal, ainda era Helena, a mulher que tanto amou. Uma mistura
de sensações tomou conta dele. Há poucos minutos daria tudo para poder ouvir a
voz de Helena novamente, para revê-la. Agora, se sentia desesperado, com medo,
aflito, e ao mesmo tempo em dúvida. Sentia-se estranho, pois seu desejo havia
se realizado, ela estava lá, esperando por ele, e agora, não sabia mais o que
queria. Suas mãos estavam geladas, talvez sua pressão tivesse caído por conta
do susto. O telefone tocou novamente.
- Alô, Helena? –
Edgar, eu sei que você está assustado, e que tudo isso é muito estranho, mas
preciso que você confie em mim. – Eu não sei se é você... – Acredite em mim,
meu amor, eu só estou tentando de ajudar. Você precisa vir ao cemitério
agora... – Não, Helena, eu não posso. Eu não sei. Eu estou confuso. Preciso de
um tempo para pensar, é tudo que eu preciso. – Tudo bem, você tem todo o tempo.
Se precisar falar comigo, é só pegar o telefone e eu estarei do outro lado.
Desligaram o telefone.
Nesse momento o
pai de Edgar entrou pela porta, e foi para o quarto do filho. – Se é para ir
invadindo minha casa assim, pelo menos me cumprimente. Desde que Edgar era criança
o pai foi assim com ele. O filho não tinha muitas lembranças calorosas do pai.
– Que bagunça
esse quarto.
– Essa é minha
casa pai, não sou mais criança, você não pode mais entrar aqui para me dar
bronca por causa do quarto desarrumado.
– Ah, meu filho,
me lembro de quando você era apenas um garoto, e eu sempre tinha que brigar com
você por conta da bagunça. Nunca vi alguém mais bagunceiro que você.
– Vai ver puxei
para você, você não é tão organizado assim.
– Talvez você
tenha puxado para mim. Eu tenho mesmo essa mania de deixar tudo bagunçado, sua
mãe sempre briga comigo por isso.
– Ela sempre
brigava comigo também, mas eu nunca me importei, ela também era muito amorosa.
– Eu só me
arrependo de não ser tão amoroso quanto ela. Eu errei com você, sempre achei
que era importante corrigir e educar, mas me esqueci de dizer a você que te
amava.
– Tudo bem, pai.
– Agora, tenho
que ir, sua mãe está me esperando para ir ao cemitério.
Edgar estava
surpreso, nunca na vida havia visto seu pai se abrir daquela forma. Talvez as
coisas entre eles pudessem melhorar agora. Isso o distraiu por alguns instantes
da misteriosa ligação, mas logo se lembrou ao sentir um calafrio. Ainda estava
frio, o susto não havia passado por completo. Deitou no sofá e ficou pensando
se deveria ou não ir ao cemitério. Ficou lá por sabe se lá quantas horas, e por
fim adormeceu.
Acordou na manhã
seguinte com um barulho em seu apartamento. Alguém havia conseguido entrar lá
dentro e estava mexendo em suas coisas. Correu para o banheiro para se
esconder. Lá dentro pegou o telefone para ligar para a polícia.
Assim que
colocou o celular no ouvido, Helena, do outro lado, começou a falar com ele. -
Alô, Edgar? Meu amor, eu preciso que você me escute... – Helena, agora não dá.
Tem alguém aqui em casa roubando minhas coisas, eu preciso ligar para a
polícia. – Não, você vai me ouvir. – Por favor, não faz isso, me deixa ligar. –
Eu vou ficar aqui até você me escutar... Ele colocou o celular no chão. Levantou-se,
e se encostou à porta para tentar ouvir o que estava acontecendo lá fora.
Foi então que
Edgar olhou no espelho e viu que o lado onde havia dormido estava com algumas
marcas. Lembrou-se de quando falava para Helena não o deixar dormir no sofá,
pois ficava todo marcado. Ficou dentro do banheiro por mais algum tempo. Não
sei dizer com exatidão quanto tempo, mas resolveu sair assim que percebeu que
os invasores já haviam ido embora. Sua casa estava fazia, nem o sofá que ele
dormira a pouco estava mais lá. O apartamento vazio ficava ainda mais frio, e
parecia que até o aquecedor haviam levado.
- Helena, está
aí? – Claro, meu amor. – Levaram tudo que eu tinha em casa, tudo. – Edgar, fica
calmo, você precisa me ouvir. Venha aqui para o Green-Wood Cemetery, eu estou
com muita saudade, preciso de você aqui comigo. Você não me ama mais? – É claro
que amo, só preciso resolver algumas coisas... Aqui da janela estou vendo meu
pai lá embaixo conversando com um casal. Vou descer lá e pedir ajuda para ele.
Desceu até a rua, mas chegando lá pode ver que
o pai já estava na esquina, entrando em um taxi. Edgar tentou correr e gritar
pelo nome do pai que não o ouviu. O celular tocou novamente. – Edgar, venha
aqui agora, eu preciso falar com você. Ele sentiu que não tinha para onde ir, e
ao invés de ir até a casa do pai decidiu ouvir o chamado de sua esposa e ir ao
cemitério para vê-la. Resolveu esquecer toda a hesitação que o fez recuar por
todo aquele tempo, e criar coragem, afinal, não poderia ser ruim rever a mulher
que tanto amou. Caminhou lentamente, sem pressa. Desceu do Harlem até o East
Harlem caminhando a pé. Depois decidiu pegar o metrô. Parecia que não entrava
em um metro há anos, e começou a sentir uma tensão enrijecendo seus músculos.
Quando se deu
conta, já era noite e estava em frente ao Green-Wood Cemetery. Ali, parado
diante daquele portão, sentia como se tivesse se tornado imóvel. Como podia ser
tão difícil realizar um desejo. Era isso que queria, era por isso que estava
ali. Sua alma ansiava por rever a esposa, mas o receio o paralisava. Caminhou
pouco a pouco para dentro do cemitério, agora podia ouvir a voz de Helena
falando em seu ouvido mesmo sem o celular. Ela chamava. – Venha, meu amor, eu
esperei tanto tempo por isso, minha alma ansiava por te ver novamente. O medo
aos pouco foi sendo substituído por uma paz caseira. Pôde ver Helena saindo por
de trás de uma árvore. Ainda era linda, radiava uma luz tão intensa que a noite
pareceu virar dia, como se todo o sol emanasse dela. Edgar foi se aproximando
aos poucos, até conseguir tocá-la, suas mãos ainda eram as mesmas, seu abraço
ainda era o mesmo; agora ele estava em casa.
- Edgar, preciso
te mostrar uma coisa. Ela o guiou até o túmulo onde estava enterrada, cuidado
por ele como se você o altar de uma santa. – Olhe para o lado, Edgar, é isso
que venho tentando te falar esses anos todos... Ao lado do túmulo de Helena
estava um túmulo com o nome de Edgar. – Eu... Não... Eu... – Sim, morreu
somente dois anos depois de mim. E já faz tanto tempo, Edgar, são mais de dez
anos que tento te avisar e você não me ouve. Sofro tanto a te ver sofrer. Seu
pai só conseguiu se desfazer de suas coisas e vender o apartamento agora. Mal
conseguia esperar o momento em que você aceitaria voltar para mim. Mas agora
descansa, não precisa mais se preocupar com nenhuma pendência, vamos, meu amor,
vamos repousar em nosso leito, porque o dia foi longo, e a noite é eterna.



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