quinta-feira, 9 de março de 2017

A Chamada



Não leva mais que alguns minutos para que o corpo comece a se decompor depois da morte. Primeiro vem o algor mortis, e o corpo começa a perder mais de um grau célsius por hora até atingir a temperatura ambiente. As células se tornam mais ácidas e se abrem liberando as enzimas dos tecidos. A seguir vem o livor mortis, ou seja, devido à gravidade, as células vermelhas do sangue vão para parte do corpo mais próxima do chão, gerando assim manchas roxas, o que permite aos legistas identificarem a posição em que o corpo morreu. Depois disso, rigor mortis, um processo que ocorre por culpa das bombas localizadas nas membranas das células musculares. Quando essas bombas param de funcionar, provocam uma inundação de cálcio que contrai e enrijece a musculatura do cadáver. Então vem a autólise. As bactérias e enzimas gastrointestinais se liberam, e em conjunto com insetos, realizam o estágio de putrefação do corpo, liberando gazes tóxicos e deixando, por fim, apenas os ossos. No entanto, o que é humano, se recusa a morrer.
Quarta-feira de cinzas chegou e Edgar se preparava para levar flores ao túmulo de sua esposa. Era difícil aceitar como morta uma figura que ainda residia em sua mente com um fulgor radiante de vida. – Helena... Helena... Repetia, todos os dias, o nome da amada em seus pensamentos. Lembrava como parecia que a própria luz do sol entrava pela porta quando ela chegava em casa. Agora era noite. Já fazia mais de um ano que ela se foi? Edgar se sentia perdido no tempo, há muito já não se preocupava mais com as horas. Ia sair para comprar as flores, e ficar o dia todo aos pés do túmulo de Helena como era de costume em toda quarta-feira de cinzas. Todavia, dessa vez, algo inesperado aconteceu. O telefone tocou.
- Alô, quem é? Como? Pare de brincadeira, isso não se faz. Sabe que dia é hoje? Pois bem, e ainda tem coragem de fazer um telefonema desses? O coração de Edgar duvidava de sua dúvida. Talvez fosse vontade de que aquilo fosse real. – Helena, é mesmo você? Ele tinha certeza que era ela, aquela voz, ele conhecia muito bem aquela voz, e ninguém mais no mundo além de Helena a tinha. Seu corpo todo tremia, havia misturando-se dentro de si medo e alegria. – Onde você está?
- Em Green Wood, no Green-Wood Cemetery. Era lá que ela havia sido enterrada. – Você está bem? – Estou com saudade, meu amor, preciso muito de você comigo. – Eu preciso desligar... – Não, por favor, Edgar, não desliga, eu preciso que você me escute...
Edgar desligou apavorado. Não conseguia nem pensar direito, tamanha a confusão que se instaurou em seu espírito. Sentiu-se muito mal por ter desligado o telefone daquele jeito, afinal, ainda era Helena, a mulher que tanto amou. Uma mistura de sensações tomou conta dele. Há poucos minutos daria tudo para poder ouvir a voz de Helena novamente, para revê-la. Agora, se sentia desesperado, com medo, aflito, e ao mesmo tempo em dúvida. Sentia-se estranho, pois seu desejo havia se realizado, ela estava lá, esperando por ele, e agora, não sabia mais o que queria. Suas mãos estavam geladas, talvez sua pressão tivesse caído por conta do susto. O telefone tocou novamente.
- Alô, Helena? – Edgar, eu sei que você está assustado, e que tudo isso é muito estranho, mas preciso que você confie em mim. – Eu não sei se é você... – Acredite em mim, meu amor, eu só estou tentando de ajudar. Você precisa vir ao cemitério agora... – Não, Helena, eu não posso. Eu não sei. Eu estou confuso. Preciso de um tempo para pensar, é tudo que eu preciso. – Tudo bem, você tem todo o tempo. Se precisar falar comigo, é só pegar o telefone e eu estarei do outro lado. Desligaram o telefone.
Nesse momento o pai de Edgar entrou pela porta, e foi para o quarto do filho. – Se é para ir invadindo minha casa assim, pelo menos me cumprimente. Desde que Edgar era criança o pai foi assim com ele. O filho não tinha muitas lembranças calorosas do pai.
– Que bagunça esse quarto.
– Essa é minha casa pai, não sou mais criança, você não pode mais entrar aqui para me dar bronca por causa do quarto desarrumado.
– Ah, meu filho, me lembro de quando você era apenas um garoto, e eu sempre tinha que brigar com você por conta da bagunça. Nunca vi alguém mais bagunceiro que você.
– Vai ver puxei para você, você não é tão organizado assim.
– Talvez você tenha puxado para mim. Eu tenho mesmo essa mania de deixar tudo bagunçado, sua mãe sempre briga comigo por isso.
– Ela sempre brigava comigo também, mas eu nunca me importei, ela também era muito amorosa.
– Eu só me arrependo de não ser tão amoroso quanto ela. Eu errei com você, sempre achei que era importante corrigir e educar, mas me esqueci de dizer a você que te amava.
– Tudo bem, pai.
– Agora, tenho que ir, sua mãe está me esperando para ir ao cemitério.
Edgar estava surpreso, nunca na vida havia visto seu pai se abrir daquela forma. Talvez as coisas entre eles pudessem melhorar agora. Isso o distraiu por alguns instantes da misteriosa ligação, mas logo se lembrou ao sentir um calafrio. Ainda estava frio, o susto não havia passado por completo. Deitou no sofá e ficou pensando se deveria ou não ir ao cemitério. Ficou lá por sabe se lá quantas horas, e por fim adormeceu.
Acordou na manhã seguinte com um barulho em seu apartamento. Alguém havia conseguido entrar lá dentro e estava mexendo em suas coisas. Correu para o banheiro para se esconder. Lá dentro pegou o telefone para ligar para a polícia.
Assim que colocou o celular no ouvido, Helena, do outro lado, começou a falar com ele. - Alô, Edgar? Meu amor, eu preciso que você me escute... – Helena, agora não dá. Tem alguém aqui em casa roubando minhas coisas, eu preciso ligar para a polícia. – Não, você vai me ouvir. – Por favor, não faz isso, me deixa ligar. – Eu vou ficar aqui até você me escutar... Ele colocou o celular no chão. Levantou-se, e se encostou à porta para tentar ouvir o que estava acontecendo lá fora.
Foi então que Edgar olhou no espelho e viu que o lado onde havia dormido estava com algumas marcas. Lembrou-se de quando falava para Helena não o deixar dormir no sofá, pois ficava todo marcado. Ficou dentro do banheiro por mais algum tempo. Não sei dizer com exatidão quanto tempo, mas resolveu sair assim que percebeu que os invasores já haviam ido embora. Sua casa estava fazia, nem o sofá que ele dormira a pouco estava mais lá. O apartamento vazio ficava ainda mais frio, e parecia que até o aquecedor haviam levado.
- Helena, está aí? – Claro, meu amor. – Levaram tudo que eu tinha em casa, tudo. – Edgar, fica calmo, você precisa me ouvir. Venha aqui para o Green-Wood Cemetery, eu estou com muita saudade, preciso de você aqui comigo. Você não me ama mais? – É claro que amo, só preciso resolver algumas coisas... Aqui da janela estou vendo meu pai lá embaixo conversando com um casal. Vou descer lá e pedir ajuda para ele.
 Desceu até a rua, mas chegando lá pode ver que o pai já estava na esquina, entrando em um taxi. Edgar tentou correr e gritar pelo nome do pai que não o ouviu. O celular tocou novamente. – Edgar, venha aqui agora, eu preciso falar com você. Ele sentiu que não tinha para onde ir, e ao invés de ir até a casa do pai decidiu ouvir o chamado de sua esposa e ir ao cemitério para vê-la. Resolveu esquecer toda a hesitação que o fez recuar por todo aquele tempo, e criar coragem, afinal, não poderia ser ruim rever a mulher que tanto amou. Caminhou lentamente, sem pressa. Desceu do Harlem até o East Harlem caminhando a pé. Depois decidiu pegar o metrô. Parecia que não entrava em um metro há anos, e começou a sentir uma tensão enrijecendo seus músculos.
Quando se deu conta, já era noite e estava em frente ao Green-Wood Cemetery. Ali, parado diante daquele portão, sentia como se tivesse se tornado imóvel. Como podia ser tão difícil realizar um desejo. Era isso que queria, era por isso que estava ali. Sua alma ansiava por rever a esposa, mas o receio o paralisava. Caminhou pouco a pouco para dentro do cemitério, agora podia ouvir a voz de Helena falando em seu ouvido mesmo sem o celular. Ela chamava. – Venha, meu amor, eu esperei tanto tempo por isso, minha alma ansiava por te ver novamente. O medo aos pouco foi sendo substituído por uma paz caseira. Pôde ver Helena saindo por de trás de uma árvore. Ainda era linda, radiava uma luz tão intensa que a noite pareceu virar dia, como se todo o sol emanasse dela. Edgar foi se aproximando aos poucos, até conseguir tocá-la, suas mãos ainda eram as mesmas, seu abraço ainda era o mesmo; agora ele estava em casa.
- Edgar, preciso te mostrar uma coisa. Ela o guiou até o túmulo onde estava enterrada, cuidado por ele como se você o altar de uma santa. – Olhe para o lado, Edgar, é isso que venho tentando te falar esses anos todos... Ao lado do túmulo de Helena estava um túmulo com o nome de Edgar. – Eu... Não... Eu... – Sim, morreu somente dois anos depois de mim. E já faz tanto tempo, Edgar, são mais de dez anos que tento te avisar e você não me ouve. Sofro tanto a te ver sofrer. Seu pai só conseguiu se desfazer de suas coisas e vender o apartamento agora. Mal conseguia esperar o momento em que você aceitaria voltar para mim. Mas agora descansa, não precisa mais se preocupar com nenhuma pendência, vamos, meu amor, vamos repousar em nosso leito, porque o dia foi longo, e a noite é eterna.

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