Acordei subitamente com
um som estranho em meu quarto. Olhei em volta e tudo parecia normal. A luz da
lua transpassava a janela dando um tom de sonho à realidade. Olhei para o
relógio digital, no exato instante que mudava das 03:32 para as 03:33. Esse foi
o horário que aquela coisa começou. Ouvi novamente o som medonho, agora mais
forte. Era como se algo batesse de punho fechado na janela de meu quarto. Olhei
para a janela, e nada. Todavia o som de pancadas contra o vidro continuava. A
sensação de sonho era tão intensa que chequei por duas ou três vezes se estava
ou não acordado.
Eu estava acordado,
tinha certeza. Como o som era insistente, resolvi checar se não vinha de algum
outro canto da casa. Talvez viesse do quarto de minha mãe. Fui em direção ao
quarto dela, com o passo apressado, uma espécie de pavor tomava meu coração, e
eu, que nunca tive medo de escuro, checava a todo instante a sensação inquietante
de haver algo escondido em meio às sombras e bem próximo de mim. Cheguei ao
quarto e bati na porta como uma criança com medo de escuro.
- Mãe! Mãe! – Chamei.
Sem resposta, resolvi abrir. O quarto estava vazio, e o mesmo clarão da lua
deixava o quarto semi-iluminado. Caminhei em direção à janela, e lá fora um
breu não me deixava enxergar nada. Era como se a luz da lua só iluminasse o
lado de dentro da casa. No entanto, nem mesmo a lua eu conseguia encontrar no
céu sem estrelas. – Mãe? – Insisti. Era possível que tivesse ido ao banheiro.
Uma batida muito forte me assustou. Parecia agora que alguém jogava seu corpo
todo contra o vidro. Porém, o som vinha de fora do quarto. Atravessei o
corredor como uma criança em pânico e desci as escadas – Mãe! Mãe! Você está no
banheiro?
Chegando ao banheiro
não encontrei ninguém. O chuveiro estava ligado e a cortina do box fechada.
Abri. - Mãe? Estava vazio. Somente a água do chuveiro escorria pelo chão que
parecia ensanguentado. Que pavor! Aquela água de sangue diluído descendo pelo
ralo. Tive medo do que pudesse ter acontecido com minha mãe. Ouvi outra vez a
pancada forte. Eu estava a entrar em pânico.
- Filho, desligue o
chuveiro, vai gastar muita água! Além do mais, o jantar já está quase pronto.
Desliguei o chuveiro e sai do banheiro de volta em direção à cozinha. – Como
assim mãe, o que te deu, são três e... Ela não estava lá. A cozinha permanecia
escura e vazia da exata maneira que estava há pouco. – Mãe? Que sangue é aquele
no banheiro? – Eu tive que sangrar um porco lá. – Como assim? Mãe, onde você
está? – Estou arrumando algumas coisas aqui no quarto, logo eu desço até aí.
Olhei para o lado e vi
colado na geladeira um bilhete:
Filho,
Fiz o jantar
para você
Coma direitinho
antes de sair daqui
Com amor, Mamãe.
Abri a geladeira e vi
horrorizado que lá dentro havia a cabeça de minha mãe em uma bandeja de prata,
rodeada de folhas e temperos. Soltei um grito de horror e sai correndo em
direção à porta da sala. Estava trancada, e eu a forçava tentando abrir em
desespero. Com aquela agonia indizível em meu peito, tentei encontrar a chave
por todo o cômodo. A chave estava em cima da estante, em frente a um espelho.
Peguei a chave e quando levantei os olhos vi o reflexo de minha mãe, que disse
violentamente – Não vai comer? Seu filho ingrato! Preparo o jantar com todo
carinho e você quer sair sem comer?
Quando me virei para
sair correndo, percebi que ela não estava na sala, estava apenas no espelho.
Corri em direção as escadas – Volte aqui seu desgraçado! Você não terminou o
seu jantar! Subi depressa em desespero. A escada dava novamente na sala. E de
novo. E de novo. De novo. Meus olhos lacrimejavam aflitos, minha cabeça estava
atormentada. Não conseguia sair dali. A chave ainda estava em minhas mãos,
então procurei a porta. Ela não estava mais lá. Agora só havia parede. Mesmo as
janelas haviam desaparecido, mas o som insistente de pancadas no vidro
continuava.
Minha mãe continuava no
reflexo a me olhar com olhos maléficos. Eu parecia estar agora pisando em um
chão molhado. Era sangue. O chão todo estava ensanguentado. Ouvi novamente as
pancadas e o som do chuveiro ligado. Fui ao banheiro. Lá vi que do chuveiro agora
minava sangue. – Filho, desligue o chuveiro, vai gastar muito sangue! Além do
mais, o jantar já está quase pronto. Sai do banheiro. Sentia agora arrepios
infinitos pelo corpo. O som de pancadas continuava ainda mais alto. Parecia vir
do andar de cima. Dessa vez passei direto pelo bilhete na geladeira e subi as
escadas depressa. Enfim eu havia conseguido chegar ao corredor novamente.
As pancadas estavam
mais próximas. Olhei para trás e não havia mais caminho nem escadas, o corredor
atrás de mim estava fechado. Ao longo dele não havia mais nenhuma porta a não
ser a de meu quarto, aberta, bem no fim do corredor. Eu não podia ver mais nada
lá dentro. Parecia que toda a escuridão do mundo repousava, agora, em meu
quarto. Caminhei lentamente em direção a porta, eu sabia que tinha que ir para
lá, não havia mais outro caminho.
A cada passo, o som
insistente aumentava. Entrei e olhei a janela sem ninguém. O som estava muito
alto. Com certeza vinha de meu quarto. Fui caminhado para dentro com a cabeça
baixa de uma criança que morre de medo de descobrir o que é que reside no
escuro. Eu estava lá dentro, de pé. Levantei a cabeça lentamente e tive o
choque de ver eu mesmo do outro lado do espelho, dando socos, numa tentativa
feroz de sair. O quarto já não tinha mais porta. Só estávamos eu e ele ali. Não
podia deixar que ele saísse do espelho. Corri os olhos no quarto em busca de
algo que pudesse destruir aquele espelho. Uma pancada mais forte veio do lado
de lá, vi que o vidro já trincava. Soltei um grito horrorizado! – O que é isso?
Ah, o que é essa coisa?
Acordei subitamente, em
meu quarto. Olhei em volta e tudo parecia normal. A luz da lua transpassava a
janela dando um tom de sonho à realidade. Olhei diretamente para o espelho. Eu
ainda não havia levantado. Levantei e comecei a socar agoniado o espelho na
intenção de destruí-lo antes que aquela coisa começasse. Do outro lado, eu
levantei assustado e olhei para o relógio digital, no exato instante que mudava
das 03:32 para as 03:33.



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