quarta-feira, 1 de março de 2017

3:33



Acordei subitamente com um som estranho em meu quarto. Olhei em volta e tudo parecia normal. A luz da lua transpassava a janela dando um tom de sonho à realidade. Olhei para o relógio digital, no exato instante que mudava das 03:32 para as 03:33. Esse foi o horário que aquela coisa começou. Ouvi novamente o som medonho, agora mais forte. Era como se algo batesse de punho fechado na janela de meu quarto. Olhei para a janela, e nada. Todavia o som de pancadas contra o vidro continuava. A sensação de sonho era tão intensa que chequei por duas ou três vezes se estava ou não acordado.
Eu estava acordado, tinha certeza. Como o som era insistente, resolvi checar se não vinha de algum outro canto da casa. Talvez viesse do quarto de minha mãe. Fui em direção ao quarto dela, com o passo apressado, uma espécie de pavor tomava meu coração, e eu, que nunca tive medo de escuro, checava a todo instante a sensação inquietante de haver algo escondido em meio às sombras e bem próximo de mim. Cheguei ao quarto e bati na porta como uma criança com medo de escuro.
- Mãe! Mãe! – Chamei. Sem resposta, resolvi abrir. O quarto estava vazio, e o mesmo clarão da lua deixava o quarto semi-iluminado. Caminhei em direção à janela, e lá fora um breu não me deixava enxergar nada. Era como se a luz da lua só iluminasse o lado de dentro da casa. No entanto, nem mesmo a lua eu conseguia encontrar no céu sem estrelas. – Mãe? – Insisti. Era possível que tivesse ido ao banheiro. Uma batida muito forte me assustou. Parecia agora que alguém jogava seu corpo todo contra o vidro. Porém, o som vinha de fora do quarto. Atravessei o corredor como uma criança em pânico e desci as escadas – Mãe! Mãe! Você está no banheiro?
Chegando ao banheiro não encontrei ninguém. O chuveiro estava ligado e a cortina do box fechada. Abri. - Mãe? Estava vazio. Somente a água do chuveiro escorria pelo chão que parecia ensanguentado. Que pavor! Aquela água de sangue diluído descendo pelo ralo. Tive medo do que pudesse ter acontecido com minha mãe. Ouvi outra vez a pancada forte. Eu estava a entrar em pânico.
- Filho, desligue o chuveiro, vai gastar muita água! Além do mais, o jantar já está quase pronto. Desliguei o chuveiro e sai do banheiro de volta em direção à cozinha. – Como assim mãe, o que te deu, são três e... Ela não estava lá. A cozinha permanecia escura e vazia da exata maneira que estava há pouco. – Mãe? Que sangue é aquele no banheiro? – Eu tive que sangrar um porco lá. – Como assim? Mãe, onde você está? – Estou arrumando algumas coisas aqui no quarto, logo eu desço até aí.
Olhei para o lado e vi colado na geladeira um bilhete:

Filho,
Fiz o jantar para você
Coma direitinho antes de sair daqui

Com amor, Mamãe.

Abri a geladeira e vi horrorizado que lá dentro havia a cabeça de minha mãe em uma bandeja de prata, rodeada de folhas e temperos. Soltei um grito de horror e sai correndo em direção à porta da sala. Estava trancada, e eu a forçava tentando abrir em desespero. Com aquela agonia indizível em meu peito, tentei encontrar a chave por todo o cômodo. A chave estava em cima da estante, em frente a um espelho. Peguei a chave e quando levantei os olhos vi o reflexo de minha mãe, que disse violentamente – Não vai comer? Seu filho ingrato! Preparo o jantar com todo carinho e você quer sair sem comer?


Quando me virei para sair correndo, percebi que ela não estava na sala, estava apenas no espelho. Corri em direção as escadas – Volte aqui seu desgraçado! Você não terminou o seu jantar! Subi depressa em desespero. A escada dava novamente na sala. E de novo. E de novo. De novo. Meus olhos lacrimejavam aflitos, minha cabeça estava atormentada. Não conseguia sair dali. A chave ainda estava em minhas mãos, então procurei a porta. Ela não estava mais lá. Agora só havia parede. Mesmo as janelas haviam desaparecido, mas o som insistente de pancadas no vidro continuava.
Minha mãe continuava no reflexo a me olhar com olhos maléficos. Eu parecia estar agora pisando em um chão molhado. Era sangue. O chão todo estava ensanguentado. Ouvi novamente as pancadas e o som do chuveiro ligado. Fui ao banheiro. Lá vi que do chuveiro agora minava sangue. – Filho, desligue o chuveiro, vai gastar muito sangue! Além do mais, o jantar já está quase pronto. Sai do banheiro. Sentia agora arrepios infinitos pelo corpo. O som de pancadas continuava ainda mais alto. Parecia vir do andar de cima. Dessa vez passei direto pelo bilhete na geladeira e subi as escadas depressa. Enfim eu havia conseguido chegar ao corredor novamente.
As pancadas estavam mais próximas. Olhei para trás e não havia mais caminho nem escadas, o corredor atrás de mim estava fechado. Ao longo dele não havia mais nenhuma porta a não ser a de meu quarto, aberta, bem no fim do corredor. Eu não podia ver mais nada lá dentro. Parecia que toda a escuridão do mundo repousava, agora, em meu quarto. Caminhei lentamente em direção a porta, eu sabia que tinha que ir para lá, não havia mais outro caminho.
A cada passo, o som insistente aumentava. Entrei e olhei a janela sem ninguém. O som estava muito alto. Com certeza vinha de meu quarto. Fui caminhado para dentro com a cabeça baixa de uma criança que morre de medo de descobrir o que é que reside no escuro. Eu estava lá dentro, de pé. Levantei a cabeça lentamente e tive o choque de ver eu mesmo do outro lado do espelho, dando socos, numa tentativa feroz de sair. O quarto já não tinha mais porta. Só estávamos eu e ele ali. Não podia deixar que ele saísse do espelho. Corri os olhos no quarto em busca de algo que pudesse destruir aquele espelho. Uma pancada mais forte veio do lado de lá, vi que o vidro já trincava. Soltei um grito horrorizado! – O que é isso? Ah, o que é essa coisa?

Acordei subitamente, em meu quarto. Olhei em volta e tudo parecia normal. A luz da lua transpassava a janela dando um tom de sonho à realidade. Olhei diretamente para o espelho. Eu ainda não havia levantado. Levantei e comecei a socar agoniado o espelho na intenção de destruí-lo antes que aquela coisa começasse. Do outro lado, eu levantei assustado e olhei para o relógio digital, no exato instante que mudava das 03:32 para as 03:33.

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