Era 31 de Dezembro de 2016, chamei alguns amigos para minha casa, e no total, vieram cear comigo doze pessoas. Passaríamos a virada de ano comendo, bebendo, conversando e todas essas coisas que se fazem nas vésperas de um ano novo. O dia estava quente e chuvoso, e eu estava ainda atrasado com os preparos da última ceia do ano. Mesmo correndo contra o tempo consegui deixar tudo pronto, agora era só esperar.
Os primeiros a
chegar foram Pedro e sua irmã Andreia. A seguir chegaram Iago, meu amigo de
pesca, João acompanhado de meu primo Tiago e Mathew, um escritor de grande
sucesso que fora antes disso servidor público. Veio com eles Filipa, mulher
desafiadora e rica que tinha por passatempo gastar a herança do pai apostando
em cavalos. Passado algum tempo que vieram esses, chegou Tomás, um homem
cético, cheio de desconfianças, no entanto, um sábio engenheiro civil. Que
alegria me deu ver chegando Natã, um de meus mais leais amigos. Simão e Tadeu
chegaram juntos, e juntos sempre andavam, grandes amigos que eram.
Por fim, vi,
deslumbrado, entrar aquela jovem que atendia pelo diminutivo Ju. Tinha uma
beleza sedutora, um andar serpentinoso, e um sorriso de coisa proibida, como um
abismo que te convida ao suicídio. Fui recebe-la com um beijo, mas antes que eu
pudesse realizar o ato ela se adiantou e me beijou com a boca macia e o hálito
doce de maçã.
Pronto.
Estávamos, agora, todos reunidos, em minha sala de jantar, para a celebração
daquele ano que, enfim, terminava. Bebíamos todos do melhor vinho que pude por
a mesa, tínhamos a mesa farta de carne, e ainda assim havia algo estranho no
ar. Pareciam todos tensos, como se as almas não conseguissem sossegar e aceitar
o fim que daqui a pouco viria. Todos se esforçavam para tentar relaxar, e
estávamos quase relaxados quando chegou a hora da contagem regressiva. Enfim, o
momento do fim havia chegado.
Todos se
abraçaram em comunhão para a contagem regressiva, o relógio a frente
orquestrava as vozes que marcavam os segundos decrescentes. - Dez! Nove! Oito!
Sete! Seis! Cinco! Quatro! Três (os ouvidos se preparavam para ouvir os fogos)!
Dois (o apertinho no peito)! Um... Nada. Nem um ruído. Olhei o relógio na parede
para conferir se não havíamos errado a contagem. Nada. O relógio sequer se
mexia.
Nesse momento,
entrou pela janela um vento gelado que sem dúvida não era uma brisa de verão.
Era um vento forte e gelado como de inverso. Ventou tão forte que as janelas da
casa todas se fecharam de uma só vez. O ambiente estava terrivelmente frio
agora. E escuro. A energia caiu, deixando tudo em um breu apenas iluminado
pelas doze velas decorativas da mesa.
- Vou lá fora ver
o que está acontecendo - Disse Pedro indo em direção a porta. - A porta não
abre. - Como assim? - A porta não abre, não sei o que aconteceu, só não abre.
Tomás quis tomar frente e ver se a porta havia realmente emperrado. - Vamos ter
que sair pela janela. Constatou Filipa, mas a tentativa se mostrou em vão,
estávamos presos.
Tentamos ainda
conferir nos celulares o que estava acontecendo, mas eles não faziam nada além
de marcar as horas. E todos diziam a mesma coisa. 23:59:59. Aparentemente o
tempo havia parado, e ficamos presos naquela casa e no ano que se recusava a
acabar. - Será que o tempo parou? Como em uma história fantástica de Edgar
Allan Poe?. Perguntou Mathew, ao que Tomás retrucou com tom de deboche - Deixa
de ser besta, menino. Essas historinhas que está lendo andam afetando a sua
cabeça.
Todos estavam
agitados com a situação, falava-se alto, gritava-se; só Ju permanecia no canto
da sala quieta e com a cara impassível. Cheguei a ela e perguntei - O que acha
que está acontecendo? - Não sei, mas sei de uma coisa, vamos ficar com fome. -
Que isso? Não se preocupe, por enquanto, temos bastante comida até a situação
se resolver. Venha, vamos comer e beber alguma coisa.
Ficamos cerca de
uma hora sentados a mesa comendo e bebendo. A embriaguez tomou conta de todos;
espíritos inquietos pela prisão e pelo álcool. É estranho isso, mas um momento
como esse, uma situação tão extrema, faz os laços afetivos se apertarem tão
depressa. Natã, que sempre me foi muito leal, parecia agora um irmão, e naquele
pouco tempo eramos todos já uma grande família. Percebendo que ainda não havia
nem sinal do fim daquele estranho evento, tentamos novamente abrir as janelas,
e como a tentativa se revelava inútil, começamos a gritar para ver se alguém
escutaria e viria nos salvar.
Acho que havia se
passado já uma semana de escuridão, quando a comida começou acabar. - E essa
escuridão que não acaba? Será que ninguém deu falta de nós ainda? Daqui a pouco
vamos ficar sem comida. Reclamava Natã com o rosto aflito. Todos estavam também
preocupados, porém quietos. A barulheira de antes foi agora substituída por um
silêncio cru. Tudo que se ouvia era Natã lamuriar. - Cala a boca, garoto! Está
me irritando! Simão explodiu em um impulso de raiva. Todos estavam perdidos,
uma embriaguez mais provocada pela situação do que pelo álcool, visto que a
bebida também já se ia acabando. Uma vela da mesa se apagou com um sopro frio
vindo sabe-se lá de onde.
Foi nesse momento
que ela veio até mim. Pude sentir a pela macia de Ju me envolver em um abraço,
e com voz sussurrante de segredo me disse - Tive uma ideia que matará a fome de
todos. Veja, estão todos ficando loucos, e Natã, bem, será o primeiro. Veja
como está fraco, e aliás é o mais fraco de todos, então o que deveríamos fazer
é... Estremeci com a proposta que ela me fez a seguir, mas não pude negar sua
razão. É estranho isso, mas um momento como esse, uma situação tão extrema, faz
os laços afetivos se afrouxarem tão de pressa.
Aproveitamo-nos
da distração de todos e convidamos Natã para vir ao escuro ajudar a procurar
uma vela, já que uma dá mesa havia se apagado. Ele veio com a inocência de um
menino, de uma criança que foi ensinada a não ter medo de escuro, que não
existem monstros lá. Tentei ser o mais piedoso que pude, cravei a faca no
pescoço, do lado que passa um artéria para que sagrasse e morresse logo.
Estrebuchava como um porco ao ser abatido, e Ju me ajudava a segurar sua boca
tampada para que não berrasse como um porco. Depois de morto, com um cutelo
decepamos a cabeça e desmembramos pedaço por pedaço. Tiramos da carne tudo que
lhe desse feição humana.
Levamos até a
cozinha, temperamos e pusemos ao forno, dentro de algum tempo, havia à mesa
carne de porco e vinho tinto. A alegria foi geral em ver que teríamos o que
comer por hora. Comiam todos e lambiam os beiços, comiam de pressa, agitados, e
bebiam o vinho sedentos de embriaguez. Estavam tão felizes e ébrios que nem se
deram conta da falta de Natã, talvez porque esse estivesse também à mesa de
alguma forma. Comiam com a ferocidade de animais selvagens, nem se importavam
mais com as etiquetas, pegavam a carne com as mãos, lambuzavam-se todos de
vinho.
Quem sabe fosse
já um mês de escuridão, quando a comida acabou por completo. Achamos por bem,
Ju e eu, que a estratégia mais sensata era pegar dessa vez Tomás, já que era o
mais desconfiado e iria logo perceber o que acontecia. E assim foi, um pouco
mais malicioso e cauteloso, tivemos que usar outra estratégia para esse. Com um
prazo de semanas, todo tipo de fome já se havia aflorado, as necessidades
humanas eram tão fortes, que Pedro e Andreia davam seu jeito entre si mesmos.
Ju atraiu Tomás instigando seus instintos, deixando a mostra o corpo, fingindo
descuido, e depois foi para escuridão.
Tomás, tomado
pela natureza mais primitiva se esqueceu por completo da cautela. Foi ao escuro
e agarrou firme Ju que se fingia distraída. Jogou-a contra o chão, tapou sua
boa, Ju fingia querer gritar, o assassinato se misturou com prazer, e quando
ergui o cutelo, ergui com tanta força, que sua cabeça chegou a tombar de lado
após o golpe. A cena foi tão intensa que Ju chegou a querer soltar uma
gargalhada, que conteve para que os outros não ouvissem. Preparamos e pusemos à
mesa.
Nosso plano de
manter o sigilo não funcionou muito bem dessa vez. Sentamos todos à mesa para
comer, mas um olhar de desconfiança se instaurou nos rostos. Olhavam o prato
servido com suspeita, deram de analisar a safra do vinho. - Onde está Tomás?
Perguntou João, mesmo já sabendo a resposta. - Não sei. Menti. A verdade era tão
gritante que apenas se mentiu acreditar na mentira, pois a fome é a maior
verdade que pode existir. Comemos todos, como animais selvagens, lambendo os
beiços e se lambuzando de vinho.
Quanto tempo
passou, entre essa ceia e o momento da desconfiança, é completamente incerto.
Era chegado o momento da guerra. Todos sabiam o que precisava ser feito, e a
suspeita jogou uns contra os outros. No entanto, para sobreviver formaram-se
dois lados, sendo que o lado vencedor ficaria com a comida, e o lado perdedor,
bem, não sentiria mais fome. Os irmãos Pedro e Andreia, ficaram de um lado,
juntos com João, Iago, Mathew e Filipa. Do lado meu e de Ju, ficaram também
Tiago, Tadeu e Simão. A batalha ia começar, quando Ju sussurrou em meu ouvido.
- Venha, vamos nos esconder no escuro, deixe que eles se matem. Mesmo os que
vencerem, logo estarão se matando também, então, nós apenas colheremos a
comida. E assim foi.
Do escuro de onde
estávamos, ouvia-se os gritos e os golpes. Não pude ver quem matou quem, mas a
lógica permite inferir, que mesmo Pedro e Andreia a partir de certo momento se
tornaram inimigos, visto que quando saímos do escuro, vimos os corpos todos
caídos, iluminados apenas pela última vela que restara acesa. O preparo dessas
carnes foi bem mais fácil, uma vez que não tínhamos a preocupação de tirar-lhes
feições humanas, pois tanto eu quanto ela sabíamos muito bem de que espécie era
a carne e as nove safras do vinho.
Foi um período de
fartura que vivemos. Bebíamos bem, comíamos melhor. Todavia, não precisa ser
nenhum gênio para prever o que se segue. Ela e eu sabíamos, mas preferimos
ignorar, até que o momento chegasse, a fim de que pudéssemos viver aquele tempo
em paz. Contudo, onde há humanidade não pode haver paz. Não durou muito para
que o receio nos tomasse, tínhamos ainda comida para uma semana, ou talvez um
mês, quando sentimos a necessidade de se adiantar.
Subitamente, um
afeto tenro tomou o coração de Ju, que pediu de forma doce, um beijo. Eu sabia
o que aquilo significava, era chegada a hora, todavia o encanto me convidava.
Eu desejava sentir o toque daqueles lábios macios, queria o hálito de maçã,
queria o abraço serpentinoso. Era também a oportunidade perfeita para matá-la.
Sentia por ela uma espécie de amor, e prometi a mim mesmo devora-la de forma
cerimonial. Veio o abraço da forma que previ, senti os lábios vermelhos, a
maçã. Ergui a faca que escondia atrás de mim, desferi-lhe o golpe sem pensar, e
senti que a faca que entrava nela entrava também em mim, literalmente.
Esfaqueei-a no exato momento em que era esfaqueado. Caímos ambos, abraçados,
com as facas em nossas costas.
Amanheceu. A luz
entrou pela janela de uma só vez, como se tivessem tirado da frente do sol algo
que o tapava. Ouvi os passos atrás da porta. Murmúrio de vozes. Eu estava vivo?
A faca não atingira em mim nenhum ponto letal? Deitado no chão, abraçado ao
corpo gelado daquela que em circunstâncias tão estranhas amei, vi entrar
chutando a porta um policial e um paramédico. - Ah! Que horror! Ouvi um deles
dizer enquanto ojerizava quase vomitando. Dois homens pegaram-me pelos braços e
me levaram até uma ambulância, enquanto eu perguntava - Que dia é hoje? Que dia
é hoje? Deitaram-me de lado na maca. - Que dia é hoje? Ao que me respondeu um
deles de tanto eu insistir. - Calma filho, hoje é 3 de Janeiro de 2016.



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