segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Conto de Terror: O Ano Que Não Terminou


     Era 31 de Dezembro de 2016, chamei alguns amigos para minha casa, e no total, vieram cear comigo doze pessoas. Passaríamos a virada de ano comendo, bebendo, conversando e todas essas coisas que se fazem nas vésperas de um ano novo. O dia estava quente e chuvoso, e eu estava ainda atrasado com os preparos da última ceia do ano. Mesmo correndo contra o tempo consegui deixar tudo pronto, agora era só esperar.
     Os primeiros a chegar foram Pedro e sua irmã Andreia. A seguir chegaram Iago, meu amigo de pesca, João acompanhado de meu primo Tiago e Mathew, um escritor de grande sucesso que fora antes disso servidor público. Veio com eles Filipa, mulher desafiadora e rica que tinha por passatempo gastar a herança do pai apostando em cavalos. Passado algum tempo que vieram esses, chegou Tomás, um homem cético, cheio de desconfianças, no entanto, um sábio engenheiro civil. Que alegria me deu ver chegando Natã, um de meus mais leais amigos. Simão e Tadeu chegaram juntos, e juntos sempre andavam, grandes amigos que eram.
     Por fim, vi, deslumbrado, entrar aquela jovem que atendia pelo diminutivo Ju. Tinha uma beleza sedutora, um andar serpentinoso, e um sorriso de coisa proibida, como um abismo que te convida ao suicídio. Fui recebe-la com um beijo, mas antes que eu pudesse realizar o ato ela se adiantou e me beijou com a boca macia e o hálito doce de maçã.
     Pronto. Estávamos, agora, todos reunidos, em minha sala de jantar, para a celebração daquele ano que, enfim, terminava. Bebíamos todos do melhor vinho que pude por a mesa, tínhamos a mesa farta de carne, e ainda assim havia algo estranho no ar. Pareciam todos tensos, como se as almas não conseguissem sossegar e aceitar o fim que daqui a pouco viria. Todos se esforçavam para tentar relaxar, e estávamos quase relaxados quando chegou a hora da contagem regressiva. Enfim, o momento do fim havia chegado.
     Todos se abraçaram em comunhão para a contagem regressiva, o relógio a frente orquestrava as vozes que marcavam os segundos decrescentes. - Dez! Nove! Oito! Sete! Seis! Cinco! Quatro! Três (os ouvidos se preparavam para ouvir os fogos)! Dois (o apertinho no peito)! Um... Nada. Nem um ruído. Olhei o relógio na parede para conferir se não havíamos errado a contagem. Nada. O relógio sequer se mexia.
     Nesse momento, entrou pela janela um vento gelado que sem dúvida não era uma brisa de verão. Era um vento forte e gelado como de inverso. Ventou tão forte que as janelas da casa todas se fecharam de uma só vez. O ambiente estava terrivelmente frio agora. E escuro. A energia caiu, deixando tudo em um breu apenas iluminado pelas doze velas decorativas da mesa.
     - Vou lá fora ver o que está acontecendo - Disse Pedro indo em direção a porta. - A porta não abre. - Como assim? - A porta não abre, não sei o que aconteceu, só não abre. Tomás quis tomar frente e ver se a porta havia realmente emperrado. - Vamos ter que sair pela janela. Constatou Filipa, mas a tentativa se mostrou em vão, estávamos presos.
     Tentamos ainda conferir nos celulares o que estava acontecendo, mas eles não faziam nada além de marcar as horas. E todos diziam a mesma coisa. 23:59:59. Aparentemente o tempo havia parado, e ficamos presos naquela casa e no ano que se recusava a acabar. - Será que o tempo parou? Como em uma história fantástica de Edgar Allan Poe?. Perguntou Mathew, ao que Tomás retrucou com tom de deboche - Deixa de ser besta, menino. Essas historinhas que está lendo andam afetando a sua cabeça.
     Todos estavam agitados com a situação, falava-se alto, gritava-se; só Ju permanecia no canto da sala quieta e com a cara impassível. Cheguei a ela e perguntei - O que acha que está acontecendo? - Não sei, mas sei de uma coisa, vamos ficar com fome. - Que isso? Não se preocupe, por enquanto, temos bastante comida até a situação se resolver. Venha, vamos comer e beber alguma coisa.
     Ficamos cerca de uma hora sentados a mesa comendo e bebendo. A embriaguez tomou conta de todos; espíritos inquietos pela prisão e pelo álcool. É estranho isso, mas um momento como esse, uma situação tão extrema, faz os laços afetivos se apertarem tão depressa. Natã, que sempre me foi muito leal, parecia agora um irmão, e naquele pouco tempo eramos todos já uma grande família. Percebendo que ainda não havia nem sinal do fim daquele estranho evento, tentamos novamente abrir as janelas, e como a tentativa se revelava inútil, começamos a gritar para ver se alguém escutaria e viria nos salvar.
     Acho que havia se passado já uma semana de escuridão, quando a comida começou acabar. - E essa escuridão que não acaba? Será que ninguém deu falta de nós ainda? Daqui a pouco vamos ficar sem comida. Reclamava Natã com o rosto aflito. Todos estavam também preocupados, porém quietos. A barulheira de antes foi agora substituída por um silêncio cru. Tudo que se ouvia era Natã lamuriar. - Cala a boca, garoto! Está me irritando! Simão explodiu em um impulso de raiva. Todos estavam perdidos, uma embriaguez mais provocada pela situação do que pelo álcool, visto que a bebida também já se ia acabando. Uma vela da mesa se apagou com um sopro frio vindo sabe-se lá de onde.
     Foi nesse momento que ela veio até mim. Pude sentir a pela macia de Ju me envolver em um abraço, e com voz sussurrante de segredo me disse - Tive uma ideia que matará a fome de todos. Veja, estão todos ficando loucos, e Natã, bem, será o primeiro. Veja como está fraco, e aliás é o mais fraco de todos, então o que deveríamos fazer é... Estremeci com a proposta que ela me fez a seguir, mas não pude negar sua razão. É estranho isso, mas um momento como esse, uma situação tão extrema, faz os laços afetivos se afrouxarem tão de pressa.
     Aproveitamo-nos da distração de todos e convidamos Natã para vir ao escuro ajudar a procurar uma vela, já que uma dá mesa havia se apagado. Ele veio com a inocência de um menino, de uma criança que foi ensinada a não ter medo de escuro, que não existem monstros lá. Tentei ser o mais piedoso que pude, cravei a faca no pescoço, do lado que passa um artéria para que sagrasse e morresse logo. Estrebuchava como um porco ao ser abatido, e Ju me ajudava a segurar sua boca tampada para que não berrasse como um porco. Depois de morto, com um cutelo decepamos a cabeça e desmembramos pedaço por pedaço. Tiramos da carne tudo que lhe desse feição humana.
     Levamos até a cozinha, temperamos e pusemos ao forno, dentro de algum tempo, havia à mesa carne de porco e vinho tinto. A alegria foi geral em ver que teríamos o que comer por hora. Comiam todos e lambiam os beiços, comiam de pressa, agitados, e bebiam o vinho sedentos de embriaguez. Estavam tão felizes e ébrios que nem se deram conta da falta de Natã, talvez porque esse estivesse também à mesa de alguma forma. Comiam com a ferocidade de animais selvagens, nem se importavam mais com as etiquetas, pegavam a carne com as mãos, lambuzavam-se todos de vinho.
     Quem sabe fosse já um mês de escuridão, quando a comida acabou por completo. Achamos por bem, Ju e eu, que a estratégia mais sensata era pegar dessa vez Tomás, já que era o mais desconfiado e iria logo perceber o que acontecia. E assim foi, um pouco mais malicioso e cauteloso, tivemos que usar outra estratégia para esse. Com um prazo de semanas, todo tipo de fome já se havia aflorado, as necessidades humanas eram tão fortes, que Pedro e Andreia davam seu jeito entre si mesmos. Ju atraiu Tomás instigando seus instintos, deixando a mostra o corpo, fingindo descuido, e depois foi para escuridão.
     Tomás, tomado pela natureza mais primitiva se esqueceu por completo da cautela. Foi ao escuro e agarrou firme Ju que se fingia distraída. Jogou-a contra o chão, tapou sua boa, Ju fingia querer gritar, o assassinato se misturou com prazer, e quando ergui o cutelo, ergui com tanta força, que sua cabeça chegou a tombar de lado após o golpe. A cena foi tão intensa que Ju chegou a querer soltar uma gargalhada, que conteve para que os outros não ouvissem. Preparamos e pusemos à mesa.
     Nosso plano de manter o sigilo não funcionou muito bem dessa vez. Sentamos todos à mesa para comer, mas um olhar de desconfiança se instaurou nos rostos. Olhavam o prato servido com suspeita, deram de analisar a safra do vinho. - Onde está Tomás? Perguntou João, mesmo já sabendo a resposta. - Não sei. Menti. A verdade era tão gritante que apenas se mentiu acreditar na mentira, pois a fome é a maior verdade que pode existir. Comemos todos, como animais selvagens, lambendo os beiços e se lambuzando de vinho.
     Quanto tempo passou, entre essa ceia e o momento da desconfiança, é completamente incerto. Era chegado o momento da guerra. Todos sabiam o que precisava ser feito, e a suspeita jogou uns contra os outros. No entanto, para sobreviver formaram-se dois lados, sendo que o lado vencedor ficaria com a comida, e o lado perdedor, bem, não sentiria mais fome. Os irmãos Pedro e Andreia, ficaram de um lado, juntos com João, Iago, Mathew e Filipa. Do lado meu e de Ju, ficaram também Tiago, Tadeu e Simão. A batalha ia começar, quando Ju sussurrou em meu ouvido. - Venha, vamos nos esconder no escuro, deixe que eles se matem. Mesmo os que vencerem, logo estarão se matando também, então, nós apenas colheremos a comida. E assim foi.
     Do escuro de onde estávamos, ouvia-se os gritos e os golpes. Não pude ver quem matou quem, mas a lógica permite inferir, que mesmo Pedro e Andreia a partir de certo momento se tornaram inimigos, visto que quando saímos do escuro, vimos os corpos todos caídos, iluminados apenas pela última vela que restara acesa. O preparo dessas carnes foi bem mais fácil, uma vez que não tínhamos a preocupação de tirar-lhes feições humanas, pois tanto eu quanto ela sabíamos muito bem de que espécie era a carne e as nove safras do vinho.
     Foi um período de fartura que vivemos. Bebíamos bem, comíamos melhor. Todavia, não precisa ser nenhum gênio para prever o que se segue. Ela e eu sabíamos, mas preferimos ignorar, até que o momento chegasse, a fim de que pudéssemos viver aquele tempo em paz. Contudo, onde há humanidade não pode haver paz. Não durou muito para que o receio nos tomasse, tínhamos ainda comida para uma semana, ou talvez um mês, quando sentimos a necessidade de se adiantar.
     Subitamente, um afeto tenro tomou o coração de Ju, que pediu de forma doce, um beijo. Eu sabia o que aquilo significava, era chegada a hora, todavia o encanto me convidava. Eu desejava sentir o toque daqueles lábios macios, queria o hálito de maçã, queria o abraço serpentinoso. Era também a oportunidade perfeita para matá-la. Sentia por ela uma espécie de amor, e prometi a mim mesmo devora-la de forma cerimonial. Veio o abraço da forma que previ, senti os lábios vermelhos, a maçã. Ergui a faca que escondia atrás de mim, desferi-lhe o golpe sem pensar, e senti que a faca que entrava nela entrava também em mim, literalmente. Esfaqueei-a no exato momento em que era esfaqueado. Caímos ambos, abraçados, com as facas em nossas costas.
     Amanheceu. A luz entrou pela janela de uma só vez, como se tivessem tirado da frente do sol algo que o tapava. Ouvi os passos atrás da porta. Murmúrio de vozes. Eu estava vivo? A faca não atingira em mim nenhum ponto letal? Deitado no chão, abraçado ao corpo gelado daquela que em circunstâncias tão estranhas amei, vi entrar chutando a porta um policial e um paramédico. - Ah! Que horror! Ouvi um deles dizer enquanto ojerizava quase vomitando. Dois homens pegaram-me pelos braços e me levaram até uma ambulância, enquanto eu perguntava - Que dia é hoje? Que dia é hoje? Deitaram-me de lado na maca. - Que dia é hoje? Ao que me respondeu um deles de tanto eu insistir. - Calma filho, hoje é 3 de Janeiro de 2016.

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